História do Krav Magá

A origem do sistema de combate – Kapap e sua contribuição

O início da história do Krav Maga remete ao início do Estado de Israel. A criação do Estado de Israel traz, em si, como a qualquer outro Estado ou Nação, a necessidade da auto-defesa. Tendo como sua raíz ou fonte inspiradora, ou, ainda, como movimentos de base, a arte marcial Kapap (sigla de krav panim el panim, que significa “luta face a face”), criada a partir de 1920, nas milícias civis para defesa da comunidade judaica na Palestina Obrigatória, traduzida em defesa de território e da própria comunidade. Aí, já se praticavam combates com as mãos. O combate corpo a corpo, com o boxe, luta com facas, luta de vara e jiujutsu formaram a espinha dorsal dessa arte marcial, separadamente, através de seus princípios e metodologias. Nesse momento, o Kapap é a ferramenta de defesa pessoal de que se dispunha, principalmente no uso civil ou briga de rua, propriamente dita.

O criador do Krav Maga e as diversas influências

Nascido em em 1910 em Budapeste, Hungria, Imi, apelido de Emerich Lichtenfeld, morava em Bratislava, na então Tchecoslováquia, quando seu pai, Samuel Lichtenfeld, tendo vivido no circo e tido contato com o boxe, com o wrestling, o levantamento de peso e a luta corporal, passa a ser policial. Samuel, por essa época, funda um clube de luta, em que diversas modalidades esportivas são disponibilizadas aos jovens. Seu filho, Imi, destaca-se em judô, boxe, wrestling, natação, ginástica e dança de salão, tendo, de fato, vencido o campeonato eslovaco de wrestling em 1928 e em 1929, ano em que foi campeão nacional de boxe e campeão internacional de ginástica.

Em 1935, em visita à então Palestina para uma competição, Imi fratura uma costela durante um treinamento. Esse acidente faz Imi perceber que “vencer a qualquer preço” não é justificável, a não ser em uma situação de real necessidade. “Não se machuque” passa a ser quase um lema para Imi, que percebe que, mesmo que o lutador reúna todas as condições e esteja preparado para isso, o combate deve ser evitado, se possível.

O retorno à terra natal e o início do Krav Maga

Ao tentar retornar à Palestina, desta vez como refugiado devido à perseguição dos nazistas, Imi e outros, após encalharem o barco em uma ilha, debilitados e doentes pela fuga, são resgatados por um barco britânico. Após tratamento, alista-se no exército britânico, no qual permanece até 1942, quando é liberado e concedida a permissão de ficar no território britânico da Palestina.

Em 1948, Imi Lichtenfeld torna se instrutor de Kapap, treinando o Palmach (unidades de combate de elite), o Palyam (unidades de combate marítimas) e o Hagana que se uniriam à moderna Zahal ou à Força de Defesa de Israel, bem como grupos de policiais, ensinando faca, jiujutsu e boxe conforme o currículo de então da arte marcial. Essa ocupação foi possível devido aos líderes israelitas perceberem todas as qualidades de lutador e instrutor de Imi. A criatividade de Imi é fundamental nesse momento, já que as situações apresentadas, de combates reais, de rua ou das linhas de frente de uma guerra, exigiam um sistema simples, mas eficaz. Além disso, como principal autoridade em defesa pessoal e combate, Imi é encarregado de treinar combatentes de todas as idades, habilidades e tamanhos. Pessoas de todas as condições são apresentadas e precisam tornar-se soldados que possam enfrentar as situações adversas sem hesitar, intuitivamente. Além disso, seus alunos deveriam ser capazes de de defender de armas de fogo, explosivos e outra ameaças, além da desenvoltura no combate corpo a corpo, sem depender da força ou da experiência do praticante. Dessa maneira, a adaptação do Kapap histórico foi natural. Por isso o termo Krav Maga ainda, nessa época, é utilizado como sinônimo de Kapap, inclusive nos documentos oficiais do exército israelense.

A ascensão do Krav Maga e sua disseminação como ferramenta de defesa

Imi torna-se o Instrutor Chefe de Treinamento Físico das forças armadas israelenses, alçando a arte marcial a ponto chave no treinamento dos soldados responsáveis pela defesa do Estado de Israel, já que Imi institui a prática do Krav Maga em detrimento do Kapap pelas forças armadas israelenses, tornando-se, também, o maior expoente da arte marcial.

Os cinco anos finais em que Imi chefiou o recém-formado ramo do Krav Maga, de 1958 a 1963, parece ter sido o período de maior importância para esta arte marcial, em que acontece a transformação em um “sistema integrado” de combate, em que a estrutura de Kapap, as habilidades de combate de mãos limpas, e os princípios orientadores da Kapap estão presentes, porém, com a presença de outros elementos compondo o sistema de combate e tornando-o eficaz, de aplicação simplificada e único.

Assim, podemos entender o Krav Maga como uma evolução do Kapap histórico, com movimentos e golpes de outras artes marciais incorporados no sistema de combate precursor, visando maior eficácia, facilidade de aplicação e, assim, uma maior disseminação do atual sistema de combate.

A partir de 1970, Imi inicia um curso com o objetivo de formar instrutores. Seus alunos foram encorajados por ele a desenvolverem suas atividades de instrutores junto às unidades militares, de segurança, de polícia e comunidade civil. A partir desse momento, Imi concentra seus esforços não somente na formação desses profissionais quanto, também, através de seu sistema, fornecer subsídios a quaisquer praticantes, incluindo crianças e mulheres, para que combate seja evitado ou finalizado o mais rapidamente possível.

Em 1978, Imi, juntamente com seus discípulos mais antigos, dentre eles Avi Moyal, atual presidente da IKMF, fundou a Ha Agudah Krav Maga Yisraeli ou Associação de Krav Maga Israel (IKMA), em Netany, sua cidade de origem, com o objetivo de manter vivo o Krav Maga em todo o Israel. Faleceu em 9 de janeiro de 1998, deixando um legado inestimável e um sistema de sobrevivência para a vida real.